Diário de Guerra #1

Aqui é o auxiliar de operações Johnson e este é um registro datado de 27 de Janeiro de 2017.

A guerra viola até as coisas mais sagradas que existem. Todos sabemos que em tempos como este um ataque pode acontecer a qualquer instante e de uma maneira até então impensável. Muito do que ocorreu nos dias que antecederam a batalha principal foi inesperado.

Havia uma calmaria que durava semanas, eu ja imaginava que isso significava um cessar fogo e que a guerra finalmente tinha chegado ao seu fim. Minha terra natal esteve dividida durante vários meses, e depois de tanto esforço e luta finalmente conseguimos sobressair. Eu sabia que esse era um dos lugares mais difíceis e que a probabilidade de algo ruim acontecer aqui seria maior que nos outros fronts.

Mas não é algo que se possuí uma escolha. Ninguém escolhe ir para guerra. Sempre de alguma forma somos compelidos a lutar. Eles, lutavam para conquistar algo que não lhes pertencia que sempre acharam que era algo seu por direito de nascença. Nós, pela nossa liberdade.

Aquele lugar era uma luta perdida e eu tinha uma guerra para lutar lá, afinal, aquela era a minha terra natal e queriam a todo custo tomar a liberdade de mim. Nunca em toda minha vida eu tinha visto tanto sofrimento e tristeza, que eram sentimentos comuns a todos os lados envolvidos. A pressão e o stress eram tantos que eu tinha certeza que aqueles que não morressem por tiros ou bombas, morreriam de exaustão, infarto ou acidente vascular cerebral. E a cada morte, independentemente do lado, era alguém próximo de mim que se ia.

Depois de tantos meses enfim acreditei que havia paz. Que todos os envolvidos tinham desistido de lutar ao perceber que era em vão. Ao menos foi o que achamos. Apesar de não ter havido uma declaração oficial de paz ela reinava entre as ruas. Quando olhavam para nós, ja não tinham mais aquele ódio nos olhos, havia apenas sofrimento e cansaço que se encontravam com o sofrimento e cansaço do nosso olhar também. Era uma guerra que nem nós nem eles queriam estar lutando, mas nossas diferenças eram tantas que era uma guerra inevitável. Mas enfim, tínhamos paz.

Anteontem eu acordei assustado, não tive reação e não consegui acreditar no que estava acontecendo. Olhei ao meu redor, indefeso, meus companheiros já tinham sido todos mortos e aqueles rostos frios, inexpressivos com suas vozes gélidas gritando em meus ouvidos com armas apontadas para mim. Não eram os mesmos inimigos tão cansados quanto nós, eram inimigos novos e inesperados. Quando finalmente entendi o que eles queriam de mim fiquei ainda mais incrédulo. Não eram mais as mesmas pessoas próximas de mim no outro lado.  Eram novas pessoas próximas, aliadas as antigas e queriam que eu fizesse como eles haviam feito e traísse a mim mesmo para se juntar a eles e viver em uma felicidade que não passava de uma mentira. Ou isso, ou morte. E eu disse sim.

Estava sendo escoltado para um lugar onde eles poderiam tirar respostas de mim, eu não sabia o que fazer, nem conseguia pensar direito. Naquele momento eu apenas existi, ouvindo o som do motor do caminhão, sendo chacoalhado pelos buracos na estrada, sentindo o vento naquela manhã quente. Eu suava frio enquanto me levaram a uma sala onde um guarda armado estava esperando eu reagir para meter uma bala na minha cara. Fizeram testes em mim e então eu fui interrogado exaustivamente. Não era a arma, os testes ou as perguntas, era o olhar que eles tinham sobre mim que me fazia sentir como se fosse lixo.

Dias depois disso o pior veio. Por leis maléficas e sem escrúpulos que aquelas pessoas acreditam serem boas e que todos devem seguir, escolhi sacrificar uma parte de mim, sabendo que a felicidade que trarei a eles durará muito menos do que o sentimento de perda, revolta e tristeza que agora toma conta de mim.

Eles são como os escravos nascidos, que encontram paz e felicidade nos grilhões, correntes e na fome, limitando seus pensamentos e suas vidas por ignorância do que é a liberdade. Eu agora, para felicidade deles pareço como um escravo. E me divido entre a tristeza de trair a quem amo, e a tristeza de trair a mim mesmo.

A guerra chegou em sua última e mais aterradora instância, a guerra interior. Meu maior inimigo agora é eu mesmo. Eu só espero que no fim dessa guerra sobreviva algo de mim e que eu não deixe de existir por completo.

Fim do registro.

 

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Você não é Coisa alguma, é areia!

Coisas que estão ali.
Passam despercebidas de nossos olhos, ouvidos e coração.
São esplêndidas, portadoras de perspectivas únicas e magnificas.
Trazem com si a possibilidade de mudar o universo.
Mas estão ali, camufladas.

Há um deserto caótico e impetuoso
Cujas areias do tempo desgastam e quebram o universo a sua vontade
Aprisionando tudo até que deixe de ser si mesmo e torne-se deserto também.

Quase tudo.
Coisas que estão ali,
Despercebidas por nós, pelas outras Coisas e pelo deserto em si.
Confundidas no meio de tanto amarelo, assim se protegem.
Camufladas nas areias desse que tenta engolir o mundo.

Olhamos e tudo que vemos é seco, áspero, árduo e sem paixão.
Só mais do mesmo em qualquer direção.
Mas ao horizonte se aproxima o caos.
Manifestado através de uma demonstração de força e fúria colossal
A tempestade de areia que faz cada partícula voar e colidir brutalmente
Arrebatando tudo em seu caminho.

Medo. Inquietação. Incerteza

O medo da tempestade é mais aterrador ainda que o da monotonia que antes existia.
O medo da mudança.
Quantas vidas inteiras encontrando apenas grãos de areia.

A incerteza, pois o deserto é complicado.
Chega um ponto que você pergunta se as Coisas realmente existem.
Você nunca viu uma, só areia.
Nem sei se sou areia, tempestade ou Coisa.

Anos já se passaram, ja vi alguns grãos de areia achando que fossem Coisas
Uma hora você cansa.
Desiste e já não procura mais encontrar uma daquelas Coisas.
Anos poderiam ter passado. Vidas…

Hoje, no meio da tempestade eu vi uma Coisa.
Não há palavras para descrever, mas era linda e doce.
Eu nunca tinha visto uma, não há um manual, sabe
É por isso que eu segurei ela, mesmo sem saber bem o que acontecerá.

Há uma Coisa que está aqui.
Não sei se sou areia, tempestade ou Coisa também.
Mas acho que ela gostou
Afinal se agora eu a vejo, é por que ela escolheu se mostrar.

Se mostrar, me mostrar que o pôr do sol é especialmente lindo no deserto.

O início de uma jornada

Bem-vindo ao Desajustando

É como quando você está perdido no escuro, com frio e avista uma luz vinda de um vão. Uma névoa misteriosa circunda a abertura cuja você se aproxima passo atrás de passo. Seu coração palpitando como se fosse o pedal duplo de Krisiun, calafrios sobem por sua espinha, olhos estralados e ar pesado.

Eternos 32 passos adiante você finalmente aproxima seu olho do buraco. Antes de entender o que esta vendo é arrastado através do mesmo e encontra-se em meio a um turbilhão de luzes, sons, sensações e vozes de todos os tipos e de tipo nenhum. Cada instante é algo novo, variando de algo que é tão claro que não se pode ver, tão barulhento que não se pode ouvir, tão cheio de sentimentos que não se consegue sentir, passando por todo um infinito de possibilidades até chegar ao ponto onde é tão escuro que não se pode ver, tão silencioso que não se pode ouvir, tão vazio de sentimentos que sente-se tudo.

Você perdeu a noção do tempo; duvida? Então pense, desde que foi sugado por esse caos, se passaram instantes ou eternidades? Por falar nisso, você nem se quer entendeu como foi sugado por uma fenda onde seu polegar não passaria. Sejam instantes ou eternidades, nenhum seria tempo suficiente para entender.

A não ser que você ainda esteja lá. Olhando através da fenda com seu olho vidrado, o pedal duplo no peito, a espada de gelo dilacerando sua espinha em arrepios e você vislumbrando o infinito.

Mas quem é você? O corpo que está fenda, ou a consciência que está no caos?
Quem diabos é você? O corpo que está na tela, ou a consciência que está lendo aqui?

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