O primeiro encontro com ela

Logo quando criança eu descobri sobre ela quando meus pais me contaram que tio Austin tinha ido para as estrelas. Fossem outros tempos nem mesmo uma criança acreditaria literalmente em tal resposta, mas aqueles eram os anos 70 e todos estavam empolgados com as promessas de exploração espacial quando os primeiros passos foram dados na lua.

Na época eu tinha quatro anos, quando tão jovens assim as pessoas tem um mundo inteiro pela frente para explorar. O primeiro dia na escola, o primeiro amigo, o primeiro tombo de bicicleta, o primeiro desenho, a primeira professora, a primeira pergunta que um adulto não sabe a resposta e, por consequência a primeira mentira, essas primeiras coisas que normalmente acontecem ainda quando criança.

Meu primo Erik, que era dois anos mais velho que eu, vinha todo domingo a minha casa para brincar comigo, mas depois que o tio Austin foi naquela viagem para as estrelas Erik parou de vir. Minha mãe me disse que era porque ele tinha pegado uma gripe e depois de alguns meses parei de perguntar.

Eu só fui entender o que aconteceu com tio Austin dois anos mais tarde, em um almoço de família enquanto todos diziam como eu era parecido com ele e me perguntavam o que eu gostaria de ser quando crescesse. Eu tinha sete anos, e ainda lembrava e sentia muita falta do meu tio, logo respondi que queria ir para as estrelas, explorar o espaço, ser um astronauta junto com meu tio. Naquele instante Erik gritou comigo:

Cala a boca Arlo! Você não vai ser astronauta, e meu pai morreu por sua culpa, eu te odeio Arlo, eu te odeio!

Hoje eu percebo que naquela época Erik me odiava porque tio Austin tinha saído de casa para me visitar, e a viagem de 15 minutos dirigindo até minha casa, se tornou na viagem que o levou as estrelas e, eu chorei.

Você se lembra como foi a primeira vez que um ente querido seu morreu, e inventaram uma mentira sobre a morte para você? Todos acham que vão poupar a inocente criança, como se conseguissem esconder para sempre a morte dela. Mas o momento em que você percebe o que ela significa, muda sua vida. Não importa quando.

E desde então todos sabemos que um dia vamos nos encontrar com ela. Mas não sabemos exatamente quando, como ou onde, até que não tenhamos mais escapatória. E ai a gente cresce, estuda, trabalha e décadas se passam sem que paremos muito pra pensar nisso.

Eu apesar de saber que Austin não era um astronauta, ainda assim segui com meu sonho de ser um. Me dediquei a vida inteira a esse objetivo. Foram anos de escola, ensino médio, faculdade, pós, mestrado, doutorado, pós-doutorado, trabalho, pesquisa, treinamento, treinamento e treinamento.

Os anos setenta tinham sido um ponto alto na exploração espacial, parecia que da lua o próximo passo logo seria marte. Mas algo aconteceu, a corrida espacial terminou, os investimentos passaram a ser muito elevados para simplesmente explorar o espaço já que não havia mais o medo de uma guerra contra os russos. E meu sonho de explorar o desconhecido se reduziu as expectativas de algumas visitas a estação espacial para fazer reparos.

Dos meus trinta e sete anos, foram aproximadamente trinta e três me preparando para quê? Não para isso!

Mais dois anos se passaram, programas com relação a exploração e possível viagem com humanos para marte surgiram e vieram com todo o vapor. Uma nova era de exploração estava se aproximando, e eu estava quase nos meus quarenta implorando por algo assim ser a minha oportunidade de ser pioneiro em algo.

Mas todo esse projeto foi ofuscado pela descoberta de um novo buraco negro. Ele não tinha nada de especial, exceto pelo fato de podermos alcança-lo em uma viagem de quatro anos com nossa tecnologia de espaçonaves na época.

A comunidade científica entrou em euforia, grandes nomes da ciência de repente surgem com novas teorias e especulações. Os programas espaciais recebem pesados investimentos tanto públicos quanto privados. E um programa para obter dados sobre o buraco negro se forma.

Uma nave tripulada por três pessoas, iria se aproximar tanto quanto possível do horizonte de eventos, enviar sondas em direção a singularidade, e obter dados que talvez pudessem contribuir para a unificação das leis que regem o universo e finalmente a humanidade compreender como o universo surgiu e uma série de outras perguntas até então sem resposta.

A capitã Akahana Wong, o astrofísico Rudnik Zakharov, e eu engenheiro de voo Arlo Olson. Essa era a tripulação da espaçonave Thánatos. 48 longos meses de viagem através do espaço, com pouca chance de sucesso, carregando o peso da humanidade nas costas e susceptíveis a impactos com meteoritos, exposição a radiação, sofrendo os efeitos debilitantes da falta de gravidade e de um planeta ao qual chamamos de lar e sentiremos muita saudades.

O mais difícil não é a nostalgia, a saudades das coisas que deixamos nos esperando na terra. O pior é você não conseguir mais lembrar das coisas. Chega um ponto onde você não se lembra mais dos sons da terra, o som do mar, da chuva, de uma rua movimentada abarrotada de gente e carros, do som da voz daqueles que você deixou para trás. E não para apenas nos sons, você esquece da aparência das coisas, dos rostos, dos lugares, enfim.

Tanto tempo confinado assim, afeta muito a mente das pessoas. Animosidades acontecem por coisas bobas, afinal, convivência gera conflito. Ainda mais sob a pressão a qual estávamos.

Mas finalmente estávamos quase chegando, e sobrevivemos até aqui. Hoje faziam 44 meses a bordo dessa espaçonave, apenas mais quatro meses e chegaríamos lá. Mudaríamos o futuro da humanidade, uma nova era de ouro para nós.

Como engenheiro de voo fazia parte da minha rotina reparar a nave, e por vezes eu precisava fazer expedições ao exterior da nave para tal. Hoje era mais um dia desses. Peguei meu equipamento, verifiquei os cabos de segurança, o reparo deveria levar cerca de meia hora e eu estava com oxigênio para pouco mais de uma hora. Iniciei o processo de equalização da pressão, abri a porta e sai da nave. O problema era em um dos sensores vitais para o cálculo da nossa rota, o qual eu mesmo participei do projeto de desenvolvimento e deveria concertar sem dificuldade alguma.

Durante o planejamento para esta missão, foram previstos todos os possíveis problemas que poderíamos ter e tudo o que precisaríamos para resolve-los foi providenciado e carregado a bordo da nave. Então só precisaríamos contar com a sorte de não sermos atingidos por meteoritos e tudo deveria dar certo.

Porém não previmos um problema, Zhakarov. Eu ainda não sei ao certo o que houve, mas ao que tudo indica ele estava tendo alguns delírios e deve ter aberto a escotilha sem equalizar a pressurização. A nave em um instante virou pedaços de destruição pelo espaço.

E agora eu estou aqui, Arlo Olson aos 44 anos a deriva na escuridão com meia hora de oxigênio, meia hora de vida. Trinta minutos onde nada que eu possa fazer vai impedir que ao fim desse tempo eu me encontre com a morte. Tudo o que eu faça agora será em vão, pois não terá efeito algum sobre este destino que agora esta traçado.

Tudo que me resta é a minha mente. E agora estou mergulhando na escuridão do espaço e me afogando em pensamentos. De todas as formas de morrer que enfrentamos no nosso cotidiano na terra, de todas as formas de morrer que superei nesses quase quatro anos no espaço, isso me acontece.

Você pode pensar que meia hora não é muito tempo, mas quando tudo o que você tem pra fazer com essa meia hora é pensar, sozinho, flutuando na escuridão, é uma viagem e tanto para a mente.

E então eu me lembro de quando eu era criança, e soube dela pela primeira vez. E desde de então eu sabia que um dia ia me encontrar com ela. Mas não sabia exatamente quando, como ou onde.

Muitos de nós param de pensar e se preocupar com a morte, já que não sabemos quando ela virá. Até por que geralmente quando você percebe que vai morrer com certeza, são instantes antes da morte chegar de fato. Você só encontra ela segundos antes de ela te encontrar. Mas eu acabei de encontrar ela, e ela só vai me encontrar em trinta minutos.

Estou com medo. Toda minha existência se resumindo a isso. Tudo acabará naquele instante em meia hora. Dizem que quando você esta morrendo toda a sua vida passa diante de você em instantes. Instantes, o que eu devo fazer com o resto? Já pensei sobre tudo. Vida, morte, universo, criação, evolução, arrependimentos, pessoas que amo, escolhas, filosofia, sentimentos, memórias, futuros possíveis se isso não tivesse acontecendo, tudo. O que você faria nessa situação? O que passaria na sua mente nesses 30 minutos em que você sabe que vai morrer e nada pode ser feito?

E nesse silencio do vazio em que estou imerso, ouço ela falando comigo, dizendo as seguintes palavras:

Você sempre soube que eu iria te encontrar um dia, e poderia ser qualquer dia. Você não sabia com certeza quando esse dia seria, então você parou de se preocupar com isso. Você me esqueceu. E de repente você me viu, agora você tem certeza, eu estou a 30 minutos de você. Me encontrou antes de eu encontrar você, qual é a sensação disso?

Nada. Nem guerras, tempo, dinheiro, ouro ou mesmo se quer sua alma me satisfará. O que eu sinto ao faze-lo não é prazer e nem desprazer. Todos apenas fazemos nossos papéis, e o meu é levar você para outra viagem.

 

 

 

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