Couve-Flor

Caminhando pelas ruas de uma pequena cidade, como o rockstar mais despretensioso de todos, distribuindo toques de mão como se fossem autógrafos a praticamente toda pessoa por quem passava pelas ruas, ele é um homem de ação. Constantemente confrontado por situações de escolha, em suas decisões não há muita enrolação, não há muitas palavras ou pensamentos, apenas a simples e velha atitude imediata.

Era o seu jeito, suas palavras, atitudes e aparência. O sujeito era tão engraçado e simpático que todos na cidade o conheciam.

Durante muitos anos, desde sua infância ele veio construindo sua fama. Mas ao meu ver ele nunca teve a intenção de nada. Sempre me pareceu alguém que estava apenas vivendo o momento. Aquele tipo de pessoa que o destino não importa tanto quanto a viagem que o levou até lá. Um menino de viagens. Um menino disposto, de coração puro e ideais sonhadores.

Ele parecia não perceber, mas agora, depois de tanto tempo, de tantas viagens, de tantas histórias e aventuras vividas, ele adquiriu uma habilidade poderosa. Não era como nada que eu já tinha visto, parecia algo tão simples e inofensivo que ninguém poderia imaginar o poder contido naquele dom. E com um grande poder, surgem grandes responsabilidades. –E grandes inimigos também–

Ele era um herói sem mascara. Trazia alegria às pessoas de uma forma pura e inocente, quando todos pareciam abandonar a causa, lá estava ele, pronto para ajudar e salvar o dia de alguém.

– Mas titio, eu entendo o quão importante e bom é isso de ajudar os outros e trazer alegria as pessoas, mas não me parece algo tãããoo poderoso assim.– Falou Norb, questionando a veracidade das palavras de seu tio Fred.

– É porque você ainda não sabe o que aconteceu a seguir Norb, deixe-me continuar – Disse Frederico, então retomando sua história.

Aos poucos ele foi percebendo que ele conseguia fazer qualquer pessoa rir, e não era qualquer risada. Depois de muita prática, ele aperfeiçoou sua habilidade ao ponto de deixar as pessoas sem folego de tanto rir. Aquelas risadas sem som, sem pudor, que faziam lágrimas escorrer dos olhos e cãibras surgirem nas bochechas.

Imagine se você tivesse o poder de fazer qualquer um rir no momento que você quisesse, e que pudesse fazer essa pessoa rir tanto que ela ficaria sem ar. É incrível!

– Largue a bolsa da senhorita seu ladrão patife! – Disse ele ao abordar um assaltante a poucos metros da vítima.

– Saia do meu caminho otário, ou te passo a faca. Tá achando que vai ser o herói do dia? – Retrucou o assaltante, que não devia ter mais do que 15 anos.

– Pode me chamar de Couve-Flor. – Disse Ele.

Não precisou de nada além dessas poucas palavras para desencadear um ataque de risos no assaltante. Dois minutos depois disso o menino estava no chão lutando para respirar de tanto rir e sem força alguma devido a cãibra generalizada. A bolsa devolveu a senhorita que olhava para ele perplexa, parecia até que naquele momento tinha esquecido que acabara de ser assaltada.

Assim que ela se recuperou do choque, agradeceu à ele e seguiu seu caminho. A essa altura o menino assaltante já estava sendo levado pela policia à delegacia e Couve-Flor continuou caminhando em direção à seu destino como em um dia qualquer.

– Você conheceu mesmo ele tio Fred? Ou isso é só mais uma de suas histórias? – Perguntou o inocente Norb.

– Eu o vi em ação diversas vezes Norb, com meus próprios olhos. Eu o via desde criança, eu era só alguns anos mais velho que ele. Mais tarde passamos a ser grandes amigos. Eu lhe juro Norberto aquele rapaz tem o dom de fazer os outros rirem, nunca em toda minha vida ri tanto quanto quando eu saia com ele. – Respondeu o tio com um brilho no olhar.

– Conte-me mais tio Fred, qual foi o feito mais inacreditável dele que o senhor se lembra? – Curioso como qualquer criança, ansioso por mais histórias Norb suplica à seu tio.

– Bem teve uma vez, muitos anos atrás que até eu fiquei atônito, foi mais ou menos assim… – Seguia Frederico a contar as aventuras do Couve-Flor.

Nós estávamos em uma pedreira nos arredores da cidade, o sol estava prestes a nascer quando recebemos uma ligação dizendo que nosso amigo em questão estava em apuros. Embarcamos no carro e fomos de imediato atrás dele, após abordar algumas pessoas nas ruas, obtemos à sua provável localização e fomos até lá na esperança de encontra-lo.

Acabamos entrando em um conjunto de ruelas sinistro, era escuro como breu e tínhamos a sensação de estar sendo vigiados o tempo todo. O silencio era tão duro que causava calafrios. Após algum tempo paramos o carro e tentamos ir a pé, não muito depois disso ouvimos o barulho de coisas caindo, muitas coisas, vindo do último barraco de mais um daqueles becos sem saída.

Quando nos aproximávamos podemos ouvir mais detalhadamente o que se passava dentro do barraco, ouvíamos vozes, mas não era exatamente alguém falando alguma coisa, mas sim murmúrios ininteligíveis. Eram cinco homens ao chão, com seus braços abraçando suas próprias barrigas em uma posição fetal lutando com todas as forças para segurar o riso.

Espiei por uma fenda nas tábuas do barraco e vi que havia uma silhueta em pé no meio daqueles homens, ao meu ver parecia que ele estava se desamarrando, como se estivesse sido sequestrado por aqueles homens no chão. Então eu vi que era ele. Aqueles bastardos tinham planejado cada detalhe, tinham armamento pesado, haviam coberto ele com um capuz, amarrado seus braços e pernas, e sem duvidas iriam executá-lo ali mesmo.

Cometeram apenas uma falha, esqueceram da mordaça. Se bem conheço não foi preciso mais que cinco palavras, uma pra cada um dos cinco homens, e logo todos estavam naquele estado. Quando entramos no barraco três deles já haviam desmaiado, estavam pálidos com os lábios roxos, os outros variavam entre delírios e apagões de consciência.

– E o que houve depois disso tio? Pediu Norb.

– Depois desse dia nunca mais o vi. Rumores corriam as ruas da cidade dizendo que ele foi viver no meio da floresta como um eremita, eu mesmo não duvidava dessa teoria, fazia o tipo dele. Alguns diziam que ele ascendeu, deixou seu corpo para se tornar a piada final, que mataria qualquer um que a ouvisse de tanto rir. Sinto saudades dele Norb – Respondeu Frederico.

– Espero que possa encontra-lo novamente titio. Obrigado pela história de hoje. Te vejo amanhã, boa noite tio Fred. – Despedia-se o jovem Norberto.

– Boa noite Norb. – Foi a ultima coisa que Norb ouviu de seu tio, que misteriosamente foi encontrado morto no dia seguinte, ao que tudo indica acometido por um “mal súbito”.

 

 

 

 

 

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