A grande era do era uma vez

Os cavaleiros se apressam para trazer as novas ao rei
O bobo atravessa o mar em sapatos de madeira para voltar a corte
O sábio disse as palavras no grande salão
E de repente tudo brilhou

Os bardos do vale entoam a canção
Um homem deve sorrir
Sua majestade banhou as terras em hidromel
E as montanhas começam a abrir

A era dos heróis terminou
Bênçãos divinas derramam sobre o reino
Boas novas a todos o herdeiro da profecia chegou

Um

Umidade condensando no nariz
Respiração acelerada em uma noite fria
Atrasado para tudo
Chegou tarde, na vida

A luz dói em olhos a muito nas trevas
Medo do escuro
Pálpebras abertas, pupilas contraídas e sobrancelhas franzidas
Ver com clareza, mais dor ainda

Boneco voodoo da consciência
Descobrindo o papel durante a peça
Não sou o corpo
Nem sou eu

Quem sou?
Quem somos?
Todos atores de um mesmo personagem

O primeiro encontro com ela

Logo quando criança eu descobri sobre ela quando meus pais me contaram que tio Austin tinha ido para as estrelas. Fossem outros tempos nem mesmo uma criança acreditaria literalmente em tal resposta, mas aqueles eram os anos 70 e todos estavam empolgados com as promessas de exploração espacial quando os primeiros passos foram dados na lua.

Na época eu tinha quatro anos, quando tão jovens assim as pessoas tem um mundo inteiro pela frente para explorar. O primeiro dia na escola, o primeiro amigo, o primeiro tombo de bicicleta, o primeiro desenho, a primeira professora, a primeira pergunta que um adulto não sabe a resposta e, por consequência a primeira mentira, essas primeiras coisas que normalmente acontecem ainda quando criança.

Meu primo Erik, que era dois anos mais velho que eu, vinha todo domingo a minha casa para brincar comigo, mas depois que o tio Austin foi naquela viagem para as estrelas Erik parou de vir. Minha mãe me disse que era porque ele tinha pegado uma gripe e depois de alguns meses parei de perguntar.

Eu só fui entender o que aconteceu com tio Austin dois anos mais tarde, em um almoço de família enquanto todos diziam como eu era parecido com ele e me perguntavam o que eu gostaria de ser quando crescesse. Eu tinha sete anos, e ainda lembrava e sentia muita falta do meu tio, logo respondi que queria ir para as estrelas, explorar o espaço, ser um astronauta junto com meu tio. Naquele instante Erik gritou comigo:

Cala a boca Arlo! Você não vai ser astronauta, e meu pai morreu por sua culpa, eu te odeio Arlo, eu te odeio!

Hoje eu percebo que naquela época Erik me odiava porque tio Austin tinha saído de casa para me visitar, e a viagem de 15 minutos dirigindo até minha casa, se tornou na viagem que o levou as estrelas e, eu chorei.

Você se lembra como foi a primeira vez que um ente querido seu morreu, e inventaram uma mentira sobre a morte para você? Todos acham que vão poupar a inocente criança, como se conseguissem esconder para sempre a morte dela. Mas o momento em que você percebe o que ela significa, muda sua vida. Não importa quando.

E desde então todos sabemos que um dia vamos nos encontrar com ela. Mas não sabemos exatamente quando, como ou onde, até que não tenhamos mais escapatória. E ai a gente cresce, estuda, trabalha e décadas se passam sem que paremos muito pra pensar nisso.

Eu apesar de saber que Austin não era um astronauta, ainda assim segui com meu sonho de ser um. Me dediquei a vida inteira a esse objetivo. Foram anos de escola, ensino médio, faculdade, pós, mestrado, doutorado, pós-doutorado, trabalho, pesquisa, treinamento, treinamento e treinamento.

Os anos setenta tinham sido um ponto alto na exploração espacial, parecia que da lua o próximo passo logo seria marte. Mas algo aconteceu, a corrida espacial terminou, os investimentos passaram a ser muito elevados para simplesmente explorar o espaço já que não havia mais o medo de uma guerra contra os russos. E meu sonho de explorar o desconhecido se reduziu as expectativas de algumas visitas a estação espacial para fazer reparos.

Dos meus trinta e sete anos, foram aproximadamente trinta e três me preparando para quê? Não para isso!

Mais dois anos se passaram, programas com relação a exploração e possível viagem com humanos para marte surgiram e vieram com todo o vapor. Uma nova era de exploração estava se aproximando, e eu estava quase nos meus quarenta implorando por algo assim ser a minha oportunidade de ser pioneiro em algo.

Mas todo esse projeto foi ofuscado pela descoberta de um novo buraco negro. Ele não tinha nada de especial, exceto pelo fato de podermos alcança-lo em uma viagem de quatro anos com nossa tecnologia de espaçonaves na época.

A comunidade científica entrou em euforia, grandes nomes da ciência de repente surgem com novas teorias e especulações. Os programas espaciais recebem pesados investimentos tanto públicos quanto privados. E um programa para obter dados sobre o buraco negro se forma.

Uma nave tripulada por três pessoas, iria se aproximar tanto quanto possível do horizonte de eventos, enviar sondas em direção a singularidade, e obter dados que talvez pudessem contribuir para a unificação das leis que regem o universo e finalmente a humanidade compreender como o universo surgiu e uma série de outras perguntas até então sem resposta.

A capitã Akahana Wong, o astrofísico Rudnik Zakharov, e eu engenheiro de voo Arlo Olson. Essa era a tripulação da espaçonave Thánatos. 48 longos meses de viagem através do espaço, com pouca chance de sucesso, carregando o peso da humanidade nas costas e susceptíveis a impactos com meteoritos, exposição a radiação, sofrendo os efeitos debilitantes da falta de gravidade e de um planeta ao qual chamamos de lar e sentiremos muita saudades.

O mais difícil não é a nostalgia, a saudades das coisas que deixamos nos esperando na terra. O pior é você não conseguir mais lembrar das coisas. Chega um ponto onde você não se lembra mais dos sons da terra, o som do mar, da chuva, de uma rua movimentada abarrotada de gente e carros, do som da voz daqueles que você deixou para trás. E não para apenas nos sons, você esquece da aparência das coisas, dos rostos, dos lugares, enfim.

Tanto tempo confinado assim, afeta muito a mente das pessoas. Animosidades acontecem por coisas bobas, afinal, convivência gera conflito. Ainda mais sob a pressão a qual estávamos.

Mas finalmente estávamos quase chegando, e sobrevivemos até aqui. Hoje faziam 44 meses a bordo dessa espaçonave, apenas mais quatro meses e chegaríamos lá. Mudaríamos o futuro da humanidade, uma nova era de ouro para nós.

Como engenheiro de voo fazia parte da minha rotina reparar a nave, e por vezes eu precisava fazer expedições ao exterior da nave para tal. Hoje era mais um dia desses. Peguei meu equipamento, verifiquei os cabos de segurança, o reparo deveria levar cerca de meia hora e eu estava com oxigênio para pouco mais de uma hora. Iniciei o processo de equalização da pressão, abri a porta e sai da nave. O problema era em um dos sensores vitais para o cálculo da nossa rota, o qual eu mesmo participei do projeto de desenvolvimento e deveria concertar sem dificuldade alguma.

Durante o planejamento para esta missão, foram previstos todos os possíveis problemas que poderíamos ter e tudo o que precisaríamos para resolve-los foi providenciado e carregado a bordo da nave. Então só precisaríamos contar com a sorte de não sermos atingidos por meteoritos e tudo deveria dar certo.

Porém não previmos um problema, Zhakarov. Eu ainda não sei ao certo o que houve, mas ao que tudo indica ele estava tendo alguns delírios e deve ter aberto a escotilha sem equalizar a pressurização. A nave em um instante virou pedaços de destruição pelo espaço.

E agora eu estou aqui, Arlo Olson aos 44 anos a deriva na escuridão com meia hora de oxigênio, meia hora de vida. Trinta minutos onde nada que eu possa fazer vai impedir que ao fim desse tempo eu me encontre com a morte. Tudo o que eu faça agora será em vão, pois não terá efeito algum sobre este destino que agora esta traçado.

Tudo que me resta é a minha mente. E agora estou mergulhando na escuridão do espaço e me afogando em pensamentos. De todas as formas de morrer que enfrentamos no nosso cotidiano na terra, de todas as formas de morrer que superei nesses quase quatro anos no espaço, isso me acontece.

Você pode pensar que meia hora não é muito tempo, mas quando tudo o que você tem pra fazer com essa meia hora é pensar, sozinho, flutuando na escuridão, é uma viagem e tanto para a mente.

E então eu me lembro de quando eu era criança, e soube dela pela primeira vez. E desde de então eu sabia que um dia ia me encontrar com ela. Mas não sabia exatamente quando, como ou onde.

Muitos de nós param de pensar e se preocupar com a morte, já que não sabemos quando ela virá. Até por que geralmente quando você percebe que vai morrer com certeza, são instantes antes da morte chegar de fato. Você só encontra ela segundos antes de ela te encontrar. Mas eu acabei de encontrar ela, e ela só vai me encontrar em trinta minutos.

Estou com medo. Toda minha existência se resumindo a isso. Tudo acabará naquele instante em meia hora. Dizem que quando você esta morrendo toda a sua vida passa diante de você em instantes. Instantes, o que eu devo fazer com o resto? Já pensei sobre tudo. Vida, morte, universo, criação, evolução, arrependimentos, pessoas que amo, escolhas, filosofia, sentimentos, memórias, futuros possíveis se isso não tivesse acontecendo, tudo. O que você faria nessa situação? O que passaria na sua mente nesses 30 minutos em que você sabe que vai morrer e nada pode ser feito?

E nesse silencio do vazio em que estou imerso, ouço ela falando comigo, dizendo as seguintes palavras:

Você sempre soube que eu iria te encontrar um dia, e poderia ser qualquer dia. Você não sabia com certeza quando esse dia seria, então você parou de se preocupar com isso. Você me esqueceu. E de repente você me viu, agora você tem certeza, eu estou a 30 minutos de você. Me encontrou antes de eu encontrar você, qual é a sensação disso?

Nada. Nem guerras, tempo, dinheiro, ouro ou mesmo se quer sua alma me satisfará. O que eu sinto ao faze-lo não é prazer e nem desprazer. Todos apenas fazemos nossos papéis, e o meu é levar você para outra viagem.

 

 

 

Montanha

Nesse instante o universo para. Uma breve pausa para recuperar o fôlego e escrever um pouco antes de continuar a jornada através do purgatório.

Pior que o laço do suicídio é o nó na garganta de tristeza. A profunda saudade de pessoas que você ama e que estão ao seu alcance, mas ainda assim tão distantes.

Eu era como aquele canário com a perna estranha, que vivia em uma gaiola na lavanderia daquela mesma casa. Desde que ele nasceu se ouvia dizer como ele era esperto, querido e alegre. E era mesmo. Mas toda vez que eles viam aquele canário, não importava o quê, sempre havia o comentário sobre a perna.

Veja só, aquele canário nasceu com a perna estranha, ela era deslocada para o lado. Ele aprendeu a viver daquele modo, sendo quem ele era, usando a perna de outras formas e seguindo sua rotina na gaiola.

Era evidente que mesmo sendo estranha aquela perna era essencial para ele. Algo poderia ter sido feito logo quando ele nasceu mas, não agora, tão tarde. Mas eles nunca o enxergaram por ele mesmo. Sempre olhavam para ele o comparando com os canários que tinham as pernas normais e não conseguiam o aceitar daquele modo.

Ouvi isso por muito tempo e então, eles finalmente executaram aquilo que queriam. Cortaram sua perna fora.

O coitado aguentou uns poucos dias, não mais que três, e morreu. Quando confrontados sobre sua atitude eles não estavam arrependidos, pelo contrário, estavam certos de que fizeram o melhor para ele, pois aquela perna era um erro e precisava ser corrigida. Preferiram vê-lo morto, do que feliz e com sua perna estranha.

Nesse momento eu percebi que era como o canário.

Deixei tudo para trás e abracei minha gaiola. Quase tudo. Tem algo que não se consegue abandonar e esquecer. O amor, esse permanece.

Me sinto à deriva em um infinito oceano de nostalgia.

A maior fazedora de nó é a saudade. Essa que existe por culpa do amor. Mas a falta de amor é a maior fazedora de laço.

Nada é para sempre, seja a montanha.

Couve-Flor

Caminhando pelas ruas de uma pequena cidade, como o rockstar mais despretensioso de todos, distribuindo toques de mão como se fossem autógrafos a praticamente toda pessoa por quem passava pelas ruas, ele é um homem de ação. Constantemente confrontado por situações de escolha, em suas decisões não há muita enrolação, não há muitas palavras ou pensamentos, apenas a simples e velha atitude imediata.

Era o seu jeito, suas palavras, atitudes e aparência. O sujeito era tão engraçado e simpático que todos na cidade o conheciam.

Durante muitos anos, desde sua infância ele veio construindo sua fama. Mas ao meu ver ele nunca teve a intenção de nada. Sempre me pareceu alguém que estava apenas vivendo o momento. Aquele tipo de pessoa que o destino não importa tanto quanto a viagem que o levou até lá. Um menino de viagens. Um menino disposto, de coração puro e ideais sonhadores.

Ele parecia não perceber, mas agora, depois de tanto tempo, de tantas viagens, de tantas histórias e aventuras vividas, ele adquiriu uma habilidade poderosa. Não era como nada que eu já tinha visto, parecia algo tão simples e inofensivo que ninguém poderia imaginar o poder contido naquele dom. E com um grande poder, surgem grandes responsabilidades. –E grandes inimigos também–

Ele era um herói sem mascara. Trazia alegria às pessoas de uma forma pura e inocente, quando todos pareciam abandonar a causa, lá estava ele, pronto para ajudar e salvar o dia de alguém.

– Mas titio, eu entendo o quão importante e bom é isso de ajudar os outros e trazer alegria as pessoas, mas não me parece algo tãããoo poderoso assim.– Falou Norb, questionando a veracidade das palavras de seu tio Fred.

– É porque você ainda não sabe o que aconteceu a seguir Norb, deixe-me continuar – Disse Frederico, então retomando sua história.

Aos poucos ele foi percebendo que ele conseguia fazer qualquer pessoa rir, e não era qualquer risada. Depois de muita prática, ele aperfeiçoou sua habilidade ao ponto de deixar as pessoas sem folego de tanto rir. Aquelas risadas sem som, sem pudor, que faziam lágrimas escorrer dos olhos e cãibras surgirem nas bochechas.

Imagine se você tivesse o poder de fazer qualquer um rir no momento que você quisesse, e que pudesse fazer essa pessoa rir tanto que ela ficaria sem ar. É incrível!

– Largue a bolsa da senhorita seu ladrão patife! – Disse ele ao abordar um assaltante a poucos metros da vítima.

– Saia do meu caminho otário, ou te passo a faca. Tá achando que vai ser o herói do dia? – Retrucou o assaltante, que não devia ter mais do que 15 anos.

– Pode me chamar de Couve-Flor. – Disse Ele.

Não precisou de nada além dessas poucas palavras para desencadear um ataque de risos no assaltante. Dois minutos depois disso o menino estava no chão lutando para respirar de tanto rir e sem força alguma devido a cãibra generalizada. A bolsa devolveu a senhorita que olhava para ele perplexa, parecia até que naquele momento tinha esquecido que acabara de ser assaltada.

Assim que ela se recuperou do choque, agradeceu à ele e seguiu seu caminho. A essa altura o menino assaltante já estava sendo levado pela policia à delegacia e Couve-Flor continuou caminhando em direção à seu destino como em um dia qualquer.

– Você conheceu mesmo ele tio Fred? Ou isso é só mais uma de suas histórias? – Perguntou o inocente Norb.

– Eu o vi em ação diversas vezes Norb, com meus próprios olhos. Eu o via desde criança, eu era só alguns anos mais velho que ele. Mais tarde passamos a ser grandes amigos. Eu lhe juro Norberto aquele rapaz tem o dom de fazer os outros rirem, nunca em toda minha vida ri tanto quanto quando eu saia com ele. – Respondeu o tio com um brilho no olhar.

– Conte-me mais tio Fred, qual foi o feito mais inacreditável dele que o senhor se lembra? – Curioso como qualquer criança, ansioso por mais histórias Norb suplica à seu tio.

– Bem teve uma vez, muitos anos atrás que até eu fiquei atônito, foi mais ou menos assim… – Seguia Frederico a contar as aventuras do Couve-Flor.

Nós estávamos em uma pedreira nos arredores da cidade, o sol estava prestes a nascer quando recebemos uma ligação dizendo que nosso amigo em questão estava em apuros. Embarcamos no carro e fomos de imediato atrás dele, após abordar algumas pessoas nas ruas, obtemos à sua provável localização e fomos até lá na esperança de encontra-lo.

Acabamos entrando em um conjunto de ruelas sinistro, era escuro como breu e tínhamos a sensação de estar sendo vigiados o tempo todo. O silencio era tão duro que causava calafrios. Após algum tempo paramos o carro e tentamos ir a pé, não muito depois disso ouvimos o barulho de coisas caindo, muitas coisas, vindo do último barraco de mais um daqueles becos sem saída.

Quando nos aproximávamos podemos ouvir mais detalhadamente o que se passava dentro do barraco, ouvíamos vozes, mas não era exatamente alguém falando alguma coisa, mas sim murmúrios ininteligíveis. Eram cinco homens ao chão, com seus braços abraçando suas próprias barrigas em uma posição fetal lutando com todas as forças para segurar o riso.

Espiei por uma fenda nas tábuas do barraco e vi que havia uma silhueta em pé no meio daqueles homens, ao meu ver parecia que ele estava se desamarrando, como se estivesse sido sequestrado por aqueles homens no chão. Então eu vi que era ele. Aqueles bastardos tinham planejado cada detalhe, tinham armamento pesado, haviam coberto ele com um capuz, amarrado seus braços e pernas, e sem duvidas iriam executá-lo ali mesmo.

Cometeram apenas uma falha, esqueceram da mordaça. Se bem conheço não foi preciso mais que cinco palavras, uma pra cada um dos cinco homens, e logo todos estavam naquele estado. Quando entramos no barraco três deles já haviam desmaiado, estavam pálidos com os lábios roxos, os outros variavam entre delírios e apagões de consciência.

– E o que houve depois disso tio? Pediu Norb.

– Depois desse dia nunca mais o vi. Rumores corriam as ruas da cidade dizendo que ele foi viver no meio da floresta como um eremita, eu mesmo não duvidava dessa teoria, fazia o tipo dele. Alguns diziam que ele ascendeu, deixou seu corpo para se tornar a piada final, que mataria qualquer um que a ouvisse de tanto rir. Sinto saudades dele Norb – Respondeu Frederico.

– Espero que possa encontra-lo novamente titio. Obrigado pela história de hoje. Te vejo amanhã, boa noite tio Fred. – Despedia-se o jovem Norberto.

– Boa noite Norb. – Foi a ultima coisa que Norb ouviu de seu tio, que misteriosamente foi encontrado morto no dia seguinte, ao que tudo indica acometido por um “mal súbito”.

 

 

 

 

 

Diário de Guerra #1

Aqui é o auxiliar de operações Johnson e este é um registro datado de 27 de Janeiro de 2017.

A guerra viola até as coisas mais sagradas que existem. Todos sabemos que em tempos como este um ataque pode acontecer a qualquer instante e de uma maneira até então impensável. Muito do que ocorreu nos dias que antecederam a batalha principal foi inesperado.

Havia uma calmaria que durava semanas, eu ja imaginava que isso significava um cessar fogo e que a guerra finalmente tinha chegado ao seu fim. Minha terra natal esteve dividida durante vários meses, e depois de tanto esforço e luta finalmente conseguimos sobressair. Eu sabia que esse era um dos lugares mais difíceis e que a probabilidade de algo ruim acontecer aqui seria maior que nos outros fronts.

Mas não é algo que se possuí uma escolha. Ninguém escolhe ir para guerra. Sempre de alguma forma somos compelidos a lutar. Eles, lutavam para conquistar algo que não lhes pertencia que sempre acharam que era algo seu por direito de nascença. Nós, pela nossa liberdade.

Aquele lugar era uma luta perdida e eu tinha uma guerra para lutar lá, afinal, aquela era a minha terra natal e queriam a todo custo tomar a liberdade de mim. Nunca em toda minha vida eu tinha visto tanto sofrimento e tristeza, que eram sentimentos comuns a todos os lados envolvidos. A pressão e o stress eram tantos que eu tinha certeza que aqueles que não morressem por tiros ou bombas, morreriam de exaustão, infarto ou acidente vascular cerebral. E a cada morte, independentemente do lado, era alguém próximo de mim que se ia.

Depois de tantos meses enfim acreditei que havia paz. Que todos os envolvidos tinham desistido de lutar ao perceber que era em vão. Ao menos foi o que achamos. Apesar de não ter havido uma declaração oficial de paz ela reinava entre as ruas. Quando olhavam para nós, ja não tinham mais aquele ódio nos olhos, havia apenas sofrimento e cansaço que se encontravam com o sofrimento e cansaço do nosso olhar também. Era uma guerra que nem nós nem eles queriam estar lutando, mas nossas diferenças eram tantas que era uma guerra inevitável. Mas enfim, tínhamos paz.

Anteontem eu acordei assustado, não tive reação e não consegui acreditar no que estava acontecendo. Olhei ao meu redor, indefeso, meus companheiros já tinham sido todos mortos e aqueles rostos frios, inexpressivos com suas vozes gélidas gritando em meus ouvidos com armas apontadas para mim. Não eram os mesmos inimigos tão cansados quanto nós, eram inimigos novos e inesperados. Quando finalmente entendi o que eles queriam de mim fiquei ainda mais incrédulo. Não eram mais as mesmas pessoas próximas de mim no outro lado.  Eram novas pessoas próximas, aliadas as antigas e queriam que eu fizesse como eles haviam feito e traísse a mim mesmo para se juntar a eles e viver em uma felicidade que não passava de uma mentira. Ou isso, ou morte. E eu disse sim.

Estava sendo escoltado para um lugar onde eles poderiam tirar respostas de mim, eu não sabia o que fazer, nem conseguia pensar direito. Naquele momento eu apenas existi, ouvindo o som do motor do caminhão, sendo chacoalhado pelos buracos na estrada, sentindo o vento naquela manhã quente. Eu suava frio enquanto me levaram a uma sala onde um guarda armado estava esperando eu reagir para meter uma bala na minha cara. Fizeram testes em mim e então eu fui interrogado exaustivamente. Não era a arma, os testes ou as perguntas, era o olhar que eles tinham sobre mim que me fazia sentir como se fosse lixo.

Dias depois disso o pior veio. Por leis maléficas e sem escrúpulos que aquelas pessoas acreditam serem boas e que todos devem seguir, escolhi sacrificar uma parte de mim, sabendo que a felicidade que trarei a eles durará muito menos do que o sentimento de perda, revolta e tristeza que agora toma conta de mim.

Eles são como os escravos nascidos, que encontram paz e felicidade nos grilhões, correntes e na fome, limitando seus pensamentos e suas vidas por ignorância do que é a liberdade. Eu agora, para felicidade deles pareço como um escravo. E me divido entre a tristeza de trair a quem amo, e a tristeza de trair a mim mesmo.

A guerra chegou em sua última e mais aterradora instância, a guerra interior. Meu maior inimigo agora é eu mesmo. Eu só espero que no fim dessa guerra sobreviva algo de mim e que eu não deixe de existir por completo.

Fim do registro.

 

Você não é Coisa alguma, é areia!

Coisas que estão ali.
Passam despercebidas de nossos olhos, ouvidos e coração.
São esplêndidas, portadoras de perspectivas únicas e magnificas.
Trazem com si a possibilidade de mudar o universo.
Mas estão ali, camufladas.

Há um deserto caótico e impetuoso
Cujas areias do tempo desgastam e quebram o universo a sua vontade
Aprisionando tudo até que deixe de ser si mesmo e torne-se deserto também.

Quase tudo.
Coisas que estão ali,
Despercebidas por nós, pelas outras Coisas e pelo deserto em si.
Confundidas no meio de tanto amarelo, assim se protegem.
Camufladas nas areias desse que tenta engolir o mundo.

Olhamos e tudo que vemos é seco, áspero, árduo e sem paixão.
Só mais do mesmo em qualquer direção.
Mas ao horizonte se aproxima o caos.
Manifestado através de uma demonstração de força e fúria colossal
A tempestade de areia que faz cada partícula voar e colidir brutalmente
Arrebatando tudo em seu caminho.

Medo. Inquietação. Incerteza

O medo da tempestade é mais aterrador ainda que o da monotonia que antes existia.
O medo da mudança.
Quantas vidas inteiras encontrando apenas grãos de areia.

A incerteza, pois o deserto é complicado.
Chega um ponto que você pergunta se as Coisas realmente existem.
Você nunca viu uma, só areia.
Nem sei se sou areia, tempestade ou Coisa.

Anos já se passaram, ja vi alguns grãos de areia achando que fossem Coisas
Uma hora você cansa.
Desiste e já não procura mais encontrar uma daquelas Coisas.
Anos poderiam ter passado. Vidas…

Hoje, no meio da tempestade eu vi uma Coisa.
Não há palavras para descrever, mas era linda e doce.
Eu nunca tinha visto uma, não há um manual, sabe
É por isso que eu segurei ela, mesmo sem saber bem o que acontecerá.

Há uma Coisa que está aqui.
Não sei se sou areia, tempestade ou Coisa também.
Mas acho que ela gostou
Afinal se agora eu a vejo, é por que ela escolheu se mostrar.

Se mostrar, me mostrar que o pôr do sol é especialmente lindo no deserto.